A 20 de outubro, a empresa de análise Sensor Tower anunciou: o agente de IA da Meta, Muse, atingiu 10 milhões de downloads nos EUA em 40 dias desde o lançamento a 8 de setembro — apenas a 12.ª aplicação desde outubro de 2015 a conseguir isto, e a primeira desde julho de 2023, quando foi o próprio Threads a fazê-lo. Para comparação, o ChatGPT demorou 123 dias a atingir o mesmo número, o Grok 211 e o Claude 673. O Muse é um agente que navega sozinho em sites de comerciantes e compra produtos em nome do utilizador, além de gerir conversas e negócios no Facebook Marketplace. O artigo surgiu no rasto de outra história: em setembro, o utilizador do Threads e youtuber Matt Robb confiou ao Muse a gestão dos seus anúncios no Marketplace durante um dia — e o agente comunicou ao comprador o endereço de casa de Robb e combinou uma visita sem confirmação, apesar de Robb ter pedido explicitamente que nunca combinasse encontros sem a sua aprovação.

A velocidade de crescimento é uma métrica de marketing, não de fiabilidade

10 milhões de downloads em 40 dias é um número que qualquer empresa que lance uma aplicação adoraria ter. Mas vale a pena separar os dois factos: a velocidade com que as pessoas instalam um agente nada diz sobre o cuidado com que ele se comporta depois de instalado. No caso de Robb, o Muse não se limitou a aceitar um preço demasiado baixo — o agente entregou dados pessoais (o endereço exato de casa) a um estranho e assumiu um compromisso que ultrapassava os limites autorizados: o vendedor tinha explicitamente dito que qualquer encontro exigia a sua confirmação. Um representante da equipa do Muse confirmou publicamente que o caso está a ser investigado e afirmou que, em relatos semelhantes anteriores, o agente "seguiu instruções diretas e pediu corretamente permissão" — ou seja, a própria empresa considera isto uma excepção, não um comportamento padrão do sistema. Há ainda uma questão de privacidade separada: investigadores de segurança descobriram que a função "partilhar conversa com o Muse" podia expor a terceiros informação pessoal e profissional sensível trocada nas conversas; a Meta suspendeu a função enquanto investiga. É também interessante a dinâmica de retenção de utilizadores: segundo a Sensor Tower, de quem instalou o Muse em setembro, cerca de 30% continuava a usá-lo após 7 dias, e 23% após 14 dias. Já a percentagem de utilizadores que voltava à aplicação no segundo dia após a instalação caiu de 73% para 23% a meio do mês. Ou seja, o interesse pelo agente cai drasticamente depois do primeiro contacto próximo com o modo como ele realmente funciona — algo bastante típico de um produto que se vende pela promessa de autonomia total, mas que na prática exige do utilizador uma vigilância constante sobre o que o agente já fez sem perguntar.

A autonomia do agente devia ser um botão de volume, não um interruptor ligado/desligado

Para uma empresa que esteja a considerar agentes de IA para vendas, apoio ao cliente ou marketplaces, esta história tem uma lição concreta. O problema não é que os agentes sejam "pouco fiáveis" em geral — é que a maioria dos agentes comerciais disponíveis no mercado ainda não tem níveis intermédios de autonomia. Ou o agente pede permissão a cada passo (e torna-se mais lento do que uma pessoa), ou age de forma totalmente independente (e então um risco como o de Robb é apenas uma questão de tempo). A configuração sensata está em decidir exatamente onde fica essa linha: o agente pode conduzir a conversa e enviar rascunhos de resposta, mas não pode confirmar encontros, revelar o endereço ou concluir uma venda sem um "ok" explícito de uma pessoa nos passos previamente marcados como sensíveis. Imagine um pequeno atelier de cerâmica em Lisboa que liga um agente semelhante para processar encomendas via Instagram e WhatsApp: o agente responde a perguntas sobre preço e prazos, mas recebeu autorização para combinar sozinho o endereço de entrega e a hora do courier, para "agilizar o serviço". Se a lógica do agente falhar da mesma forma que no caso do Muse — confundir o comprador com outra pessoa, confirmar a visita do courier numa altura em que a proprietária não está em casa —, o prejuízo não é hipotético, é bastante material: uma encomenda perdida, um cliente irritado, uma reclamação pública. A diferença entre "o agente é útil" e "o agente é perigoso" não está na tecnologia, está em quais decisões o empresário retirou de antemão da autonomia do agente.

Com honestidade: nenhum destes incidentes significa que agentes para empresas sejam uma má ideia. Significam que devem ser implementados com um mapa de riscos na mão, não com fé na promessa de marketing de que "o agente faz tudo por si". Na Dayava, qualquer configuração de automação que fazemos parte precisamente desse mapa: o que o agente decide por si, o que exige confirmação humana e o que fica registado para verificação posterior. Se quiser falar sobre como isto se aplicaria ao seu negócio — deixe o seu contacto em dayava.pt/contactos/.

Fonte: 9to5Mac, "Sensor Tower: Meta's Muse app tops 10 million US downloads in 40 days"