A 18 de outubro, surgiram detalhes de um relatório interno da Anthropic sobre como o uso de agentes de IA mudou o trabalho dentro da própria empresa. Os números são acentuados: até agosto de 2026, as horas totais de trabalho dos agentes (autónomos e interativos) superaram as horas-homem dos colaboradores numa proporção de aproximadamente 6 para 1, tendo os agentes ultrapassado as pessoas nesse indicador já em março. Em paralelo, a quota de profissionais júnior nos departamentos técnicos caiu de 27% para 9% das contratações, e um engenheiro descreveu o seu dia a dia no relatório com a frase — "um exército de Claudes, e cada um a pedir a minha atenção". O número de commits de código por engenheiro quintuplicou em seis meses.
Dentro da empresa que vende agentes, são eles que mudam a contratação
Há aqui um detalhe fácil de esquecer: não se trata de um relatório de investigação externo sobre o mercado de trabalho em geral, mas de dados da própria Anthropic sobre si mesma. A empresa vende agentes de IA aos clientes e usa-os internamente ao mesmo tempo — por isso tem um incentivo direto para mostrar que os agentes funcionam bem. Isto não torna os números falsos, mas exige um ajuste: a Anthropic não é uma observadora neutra, é uma participante do mercado com uma história que lhe interessa contar assim. Ainda assim, o relatório é honesto quanto ao outro lado: a parcela de "meta-trabalho" — escrever especificações técnicas, rever resultados dos agentes, monitorizar pipelines — subiu de 10% das sessões interativas no outono de 2025 para 22% na primavera de 2026. E as próprias sessões com agentes, segundo o relatório, passam cerca de 80% do tempo à espera de uma resposta humana. Ou seja, o estrangulamento não desapareceu — apenas se deslocou de "quem escreve o código" para "quem consegue responder a tempo ao agente e verificar o seu trabalho".
O que isto significa para a contratação numa empresa de 15 pessoas, e não de 15 mil
A Anthropic — uma empresa que triplicou de dimensão no período em análise e pode dar-se ao luxo de reorganizar radicalmente a contratação em torno de "autonomia e discernimento" em vez de experiência técnica estreita — é precisamente isso que, segundo o relatório, os responsáveis por contratações passaram a procurar mais, em funções técnicas e até não técnicas. Para uma pequena empresa — por exemplo, uma agência portuguesa de desenvolvimento web com 12 pessoas — transpor diretamente esta lógica é arriscado. Essa empresa não tem recursos para um "operador de agentes" dedicado apenas a verificar o trabalho deles; em vez disso, a verificação recai habitualmente sobre o mesmo profissional sénior que deveria estar a escrever código. Se 80% do tempo do agente é passado à espera de uma pessoa, e essa pessoa é sempre a mesma, a poupança de horas não se converte automaticamente em poupança na folha salarial, sobretudo nos primeiros meses de implementação.
A conclusão prática para pequenas e médias empresas aqui não é "contrate menos júniores", mas sim "calcule quem, na sua equipa, gasta tempo a verificar e explicar tarefas — a uma pessoa ou a um agente". Se, numa empresa de contabilidade com 8 pessoas, alguém já gasta duas horas por dia a explicar o contexto de um cliente ao agente a cada nova tarefa, o ganho formal de velocidade é facilmente anulado por essas duas horas, e a decisão de "contratar mais um júnior para as tarefas de rotina" pode acabar por ser mais barata do que parece no papel. O relatório também mostra que o número de sessões com agentes entre colaboradores não técnicos da Anthropic subiu de duas por mês em agosto de 2025 para 90 em maio de 2026 — ou seja, os agentes estão a entrar não só no desenvolvimento, mas também no marketing, no apoio ao cliente e na administração, pelo que este recálculo de carga de trabalho diz respeito a qualquer função com tarefas repetitivas, não só ao departamento de TI.
Honestamente, o maior risco desta notícia não está nos agentes em si, mas no facto de empresas mais pequenas começarem a copiar decisões de contratação de empresas como a Anthropic sem ajustar à escala. 6 para 1 é uma proporção calculada para uma organização com uma infraestrutura de agentes enorme e funções dedicadas ao seu suporte; aplicá-la literalmente a uma equipa de dez pessoas é um erro metodológico que pode custar dinheiro real em decisões de contratação ou de corte de pessoal.
Na Dayava implementamos automação com agentes exatamente com este tipo de recálculo de carga — não para constar num relatório, mas para que as horas reais dos colaboradores fiquem livres para tarefas que um agente, de facto, não consegue resolver por si só.
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Fonte: Dealroom, "Anthropic's AI agents outwork staff 6-to-1 as junior tech hiring collapses"